UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA

                   CÂMPUS UNIVERSITÁRIO DE BAURU

                       FACULDADE DE CIÊNCIAS

JMFV/nmg.

  LABORATÓRIO DIDÁTICO VIRTUAL DE QUÍMICA

                                

           Ninguém relativamente informado desconhece o fato de estarmos vivendo em plena era da Ciência e da Técnica. Vive-se hoje o sonho de Descartes. A sabedoria tão cara aos gregos, abre espaço para a Técnica entendida, em sua essência, como habilidade humana para planejar e executar artefatos, aparelhos, equipamentos etc. com a finalidade precípua de amenizar, agilizar, facilitar ou reduzir o esforço dedicado ao trabalho e afazeres inerentes à prática social. A Técnica significa, no limite, potencializar o trabalho com a adoção de soluções testadas, praticamente, para economia de esforço, tempo e dinheiro. É a ampliação do poder humano de transformar, pelo trabalho, a “realidade rebelde” que oferece resistência aos desígnios humanos. A Técnica se converte em Tecnologia quando determinado setor de atividade humana escapa do empirismo próprio ao processo de “ensaio e erro” e incorpora os princípios científicos de maneira sistemática às técnicas específicas, através do processo de “tateio experimental”. A Tecnologia é a técnica embasada por princípios científicos que permitem o relacionamento sistemático entre Ciência e a Técnica. Esse relacionamento estrutural entre Ciência e Técnica sob a perspectiva de incorporação dos princípios científicos à Técnica foi resultado do avanço do modo de produção capitalista que ocorreu  de maneira significativa no decorrer do século XIX até a 2ª Guerra Mundial. Com o aparecimento do computador o meio técnico-científico foi alterado substancialmente com a dimensão informacional. Hoje, em pleno início do século XXI estamos, segundo MANACORDA, assistindo a 2ª, 3ª ou talvez a 4ª revolução industrial “fundada em coisas que todos conhecemos, de uso prático, imediato: informática, os computadores, os robôs etc” (1986:56). Em decorrência do contexto globalizante atual cuja origem remonta às orientações neoliberais estabelecidas desde 1945, o meio técnico-científico anterior foi acrescido da dimensão informacional. Hoje o meio informacional é, segundo SANTOS, o elemento determinante na relação técnico-científica. Diz o eminente geógrafo:

         “A Técnica tornou-se informacional. Este é o grande salto quantitativo mas, sobretudo, qualitativo. A técnica permite que a noção de artesanato volte. A opressão da máquina ainda é verdadeira com o uso da informática, em função de uma certa forma de organização do mundo, mas a informática pode funcionar a partir da inteligência dos homens e de cada homem” (2000:19)

                            O pensamento de SANTOS, salvo melhor compreensão, caminha no sentido de evidenciar que, apesar das condições organizacionais atuais impedirem o uso correto da tecnologia, as situações inéditas criadas pelo contexto industrial exigem tomada de posição rápida e criadora de cada ser humano colocado em posições vitais. O artesanato toma agora novo perfil diante dos desafios sociais. Agora, nas condições de desenvolvimento acelerado, não há como avançar na solução criativa sem fazer uso consciente e crítico dos recursos técnicos-científicos-informacionais imperantes nas sociedades contemporâneas altamente evoluídas.

                            Todas as práticas sociais serão doravante tangidas pelo meio técnico-científico-informacional. Ser contemporâneo hoje, é viver a cultura de seu tempo, compreender os seus condicionantes, as necessidades e valores de sua época e as contradições da prática social.

                            Particularmente em relação ao Ensino Superior ocorre descompasso entre as atividades de ensino e pesquisa. Os avanços da informática foram rapidamente absorvidos pela pesquisa científica, mas em relação ao ensino as técnicas mais avançadas da informática e da comunicação seguem em marcha lenta apesar de não ser possível, hoje, ignorar a eficiência dos multimeios na transmissão e apropriação do conhecimento relevante. Se, por um lado, deve-se continuar a luta pela valorização da Universidade, dos professores e da Escola Pública em todos os níveis, também é preciso investigar as novas formas de articular o processo da educação escolar ao processo de comunicação que avassala a vida social criando a cultura midiática de conseqüências inimagináveis.

                            É preciso que o professor abra os olhos para a realidade da sociedade tecnologicamente direcionada que já se faz presente, cabendo aos educadores planejarem, executarem e avaliarem a implantação de novos meios de comunicação ao processo de ensino e aprendizagem articulando as dimensões gnosiológicas, didáticas, políticas e econômicas ligadas à complexa área da Comunicação em sua interface com a Educação.

                            FADUL alerta para a necessidade de superar tanto a concepção meramente instrumental do uso dos meios de comunicação que prevaleceram nos anos 60/70, quanto a concepção “romântica” de recusa desses meios na área educacional (1982:41). MORAN (1987, 1988), por sua vez, nos ensina que os meios são interlocutores constantes e reconhecidos pela maioria da população, principalmente jovens e crianças e não seria justo voltar as costas aos multimeios. Não seria o caso de opor os multimeios aos processos de ensino, mas articulá-los ao processo educativo.

                            CARDOSO (1982), numa perspectiva crítica em relação ao uso dos meios, toma como pressuposto que toda atividade educativa é atividade comunicativa ressaltando a importância de se elaborar uma “Didática da Comunicação” em decorrência do impacto causado pelos meios de comunicação na sociedade contemporânea.

                            LUDKE, por sua vez, demonstra a necessidade de se realizarem pesquisas para avaliação correta da possível contribuição da tecnologia para uma prática docente eficiente tomando, entretanto, a tecnologia sob  outro ponto de vista, “menos tecnológica e mais pedagógica” (1982:77)

                            Como se nota, é urgente a necessidade de elaboração de uma “Pedagogia dos Multimeios” ou “Didática da Comunicação” que dê conta das relações essenciais entre Educação e Comunicação e as tarefas conjuntas entre os profissionais que trabalham com educação e comunicação.

                            Para se criar uma “Pedagogia dos Multimeios” há necessidade, em suma, de aproximar os profissionais das mais variadas origens: professores de ciências, educadores, comunicólogos, pesquisadores, artistas, técnicos, etc. para se articular, via “tentativas experimentais”, orientações adequadas que evitem a mera substituição da aula presencial aborrecida pela aula virtual cansativa. Há, portanto, longo caminho a percorrer para se encontrar o formato adequado de trabalho docente que articule a Educação à Comunicação.

                            Ouso dizer que qualquer Laboratório Didático para o Ensino a Distância, como propõe o Departamento de Química da Faculdade de Ciências, exige alguns cuidados prévios importantes indicados a seguir:

1.      Não estabelecer equivalência entre informação e conhecimento. Embora todo conhecimento comporte informações há diferenças conceituais essenciais entre informação e conhecimento. A informação pode ser e quase sempre é singular e fragmentária. Por natureza a informação é molecular, isto é, singular. Os meios de comunicação pulverizam a realidade social através de informações autônomas, na maioria das vezes, desconectadas do todo social; neste sentido são parciais e tópicas. O conhecimento em contrapartida, caracteriza-se pela estrutura sistemática, pela organização das informações sob o prisma da trama conceitual e lógico-matemática. A Educação a Distância em Ciências precisará levar em conta a diferença específica entre informação e conhecimento; este é molar, aquela é molecular. O conhecimento se ordena pela perspectiva do objeto que define a área de pesquisa, estudo e ensino. A informação no seu aspecto comunicativo amplo visa a multiversidade sem planos teóricos definidos;

2.      Na busca e construção de uma “Pedagogia dos Multimeios” que alicerce as ações da Educação a Distância será fundamental adotar a postura de “tateio experimental” (FREINET, 1977) em que a aprendizagem e domínio do conhecimento surjam de tentativas experimentais guiadas no sentido de se encontrar a forma adequada de oferecer aos alunos elementos básicos para sua formação científica através da assimilação e incorporação do conhecimento vivo, científico, tecnológico e humano “historicamente construído” e relevante do ponto de vista da prática social (SAVANI, 1992). Tarefa nada fácil porque se corre o risco de fazer uma Educação Virtual com conteúdo atual, mas sob formas pedagógicas tradicionais;

3.      Penso que um programa de Educação a Distância (EAD) precisa ter o cuidado de articular pelo menos seis aspectos importantes: a) os fins e valores do programa; b) os conteúdos do programa; c) os métodos, técnicas e processos de apresentação dos conteúdos; d) o contexto para o qual se destina o programa; e) o conhecimento dos meios de comunicação a serem utilizados e sua tecnologia e f) avaliação contínua dos produtos oferecidos pela Educação a Distância para replanejamento e execução da ação posterior.

 

O Departamento de Química da Faculdade de Ciências da UNESP Campus de Bauru, iniciou em 2000 os primeiros estudos para implantação do Laboratório Virtual de Química Fundamental. Trata-se de esforço sério para disponibilizar aos usuários da “home-page” da Faculdade de Ciências a possibilidade de auto-aprendizagem da Química aos graduandos da Faculdade e aos demais interessados que venham visitar a página da Unidade Universitária. A iniciativa teve como responsáveis diretos os Professores Doutores Mário S. Galhiane, Lucídio de Souza Santos, Sandra Rissato e três alunos de graduação da Faculdade de Engenharia. Como dizem os responsáveis da página eletrônica o objetivo é criar “link” de Química Experimental para acesso irrestrito de pessoas interessadas na Educação a Distância em Química com a pretensão futura de expandir o trabalho para outras áreas da própria Química após avaliação da eficácia pedagógica do programa.

                            Como se percebe esse grupo de professores e alunos tem como motivação básica socializar o conhecimento técnico-científico numa área fundamental do saber humano. Desejo todo sucesso à iniciativa que encontra respaldo nas necessidades de ensino superior de qualidade para o maior número de pessoas ao mesmo tempo que dá guarida à legislação maior da Educação que prevê a Educação a Distância como uma das alternativas na formação e aperfeiçoamento em serviço de professores e alunos.

 

Bauru, 22 de janeiro de 2001.

   

PROF. DR. JOSÉ MISAEL FERREIRA DO VALE

Diretor da Faculdade de Ciências

   

BIBLIOGRAFIA

 

CARDOSO, O. Didática emancipatória da comunicação: reflexão sobre as novas técnicas de ensino. Cadernos INTERCOM (4) : 44-53, out. 1982.

FADUL, A.M. Meios de comunicação de massa e educação no Brasil: uma perspectiva crítica. Cadernos INTERCOM (4) : 30-43, out. 1982.

FREINET, C. O Método Natural. Lisboa, Estampa, 1977, p. 13-33.

LUDKE, M. Novos enfoques da pesquisa em Didática. In: CANDAU, V. M. A Didática em Questão. PETRÓPOLIS: Vozes, 1982–p.68-80.

MANACORDA, Mário A. Depoimento. Revista da ANDE. Ano 5, nº 10, 1986.

MORAN, J.M.C. Educar para a comunicação: análise das experiências latino-americanas de leitura crítica da comunicação. São Paulo: ECA/USP, 1987 (tese de doutorado).

_______________.Educar para a comunicação: a análise dos meios na escola e na comunicação. In: Comunicação e Sociedade. São Paulo: 1988, p. 7-23.

________________.Para uma leitura crítica da comunicação. Revista de Cultura Vozes. 83 (2): 163-78, março/abril, 1989.

SANTOS, Milton. Globalização, Cidadania e Meio Técnico-Científico Informacional. In: Milton Santos: Cidadania e Globalização. São Paulo: Saraiva, 2000, p. 15-20.

VALE, J.M.F. do. Educação e Comunicação: os recursos tecnológicos e as possibilidades didático-pedagógicas. O Espaço do Geógrafo. Órgão informativo da AGB da Seção Bauru. Bauru (SP), nº 09, 1.º trimestre de 1997. 10-2.