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ENCINE - Ensino de Ciências e Inclusão Escolar
Artigos e Publicações - 2011
 

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ENSINO DE CONCEITOS DE TERMODINÂMICA PARA ALUNOS COM DEFICIÊNCIA AUDITIVA: PROCESSO INICIAL DE INVESTIGAÇÃO
TEACHING THERMODYNAMICS FOR HEARING IMPAIRED STUDENTS: AN INITIAL INVESTIGATION.

Thiago José Batista de Almeida1, Eder Pires de Camargo2, Denise Fernandes de Mello3
1Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência, Faculdade de Ciências, UNESP (Bauru – SP), thifis@fc.unesp.br
2Departamento de Física e Química, Faculdade de Engenharia, UNESP (Ilha Solteira –SP), camargoep@dfq.feis.unesp.br
3Departamento de Física, Faculdade de Ciências, UNESP (Bauru – SP), dfmello@fc.unesp.br
Publicado nas atas do XIII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física (XIII EPEF):  Integração da Física na América Latina. Foz do Iguaçu, Paraná   - Pr. Data: de 05/06/2011 a 10/06/2011
http://sbfisica.org.br/~fisica2011/

Introdução
As políticas educacionais estão cada vez mais preocupadas em promover a inclusão escolar de alunos com deficiências (BRASIL, 2005). Isso é avaliado como positivo, no entanto devemos observar como está sendo realizado este processo e também se professores e funcionários das escolas estão preparados para essa nova realidade.  A partir disso, torna-se fundamental observarmos políticas nacionais interessadas em fornecer materiais e também capacitar profissionais para atender esses alunos.  No estado de São Paulo, em relação à deficiência auditiva, percebe-se o interesse governamental de que nas salas de aula haja a presença de um intérprete de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) - (SÃO PAULO, 2008).  Este tema é abordado nesse trabalho através de uma discussão inicial acerca do processo de comunicação e metodologias que estão sendo utilizadas, e se são eficientes para a aprendizagem de conceitos de termodinâmica por alunos com deficiência auditiva.  Investigações acerca da inclusão de alunos com deficiências em aulas de ciências foram realizadas no Brasil na última década. Pesquisas neste tema ainda são incipientes, mas alguns trabalhos apresentados em eventos científicos como EPEF e SNEF tem abordado questões relacionadas ao ensino de ciências para alunos surdos (SILVA, PIRES, 2003; BARBOSA-LIMA, SANTANA, 2004). Buscando contribuir com a temática abordada, propomos, em linhas gerais, discutir o ensino de conteúdos da física para alunos surdos incluídos em sala de aula regular. A escolha de termodinâmica deve-se ao fato de haver dificuldades e imprecisões na interpretação e veiculação de significados pela LIBRAS de conceitos como calor e temperatura, o que faz com que possamos avaliar se as metodologias e os processos de comunicação são eficazes para uma aprendizagem com mais significado do conteúdo abordado, e também da extensão destas para outros tópicos da Física. 
Objetivo
Análise do processo de comunicação utilizado  entre intérprete de LIBRAS e discente surdo, em uma aula de termodinâmica, através de entrevista com dois discentes deficientes auditivos, e observação da aula de Física onde os mesmos estavam presentes.

Metodologia:
O trabalho é de cunho qualitativo (BOGDAN, BIKLEN, 1994). Os instrumentos de coleta de dados utilizados são:
a) realização de entrevista semi estruturada (intermediada por intérprete de LIBRAS) com dois discentes surdos presentes em aula de física (que abordou os conceitos de calor e temperatura), com objetivo de obter indícios sobre as principais dificuldades encontradas no processo de ensino-aprendizagem. Foram feitas as seguintes questões: (1) Explique o que você entende sobre calor. Apresente algum exemplo relacionado ao calor; (2) Qual é a diferença entre temperatura e calor?
b) Observação de aula que abordou os conceitos de calor e temperatura, com a presença do intérprete de LIBRAS, visando ainda que de forma inicial, identificar se as informações apresentadas pelo intérprete se assemelham aquelas veiculadas pelo docente.
Este trabalho corresponde às investigações preliminares de um projeto de mestrado em início de desenvolvimento, as quais estão em andamento em uma escola pública de Ensino Médio de uma cidade do interior do Estado de São Paulo, com presença de alunos com e sem deficiência auditiva.
Resultados
A expectativa dos estudantes surdos era a de que com a possibilidade de um intérprete de libras nas aulas, haveria uma oportunidade de melhorar o acesso ao conhecimento.  A presença do intérprete de LIBRAS possibilitou aos deficientes auditivos a oportunidade de interagir com o professor e também com os demais alunos.  Anteriormente, sem a presença do intérprete dificilmente os professores compreendiam as dúvidas, além de não conseguirem responder de forma eficiente seus questionamentos. Observamos também que a participação dos referidos alunos nas aulas vai aumentando à medida que estes se sentem mais seguros e estimulados.
Destacamos que o estabelecimento de um processo de comunicação com os discentes sobre os conceitos mencionados mostrou-se complexo.  Associamos esta ocorrência à falta de relação entre percepções empíricas relacionadas ao calor/temperatura (interpretação social desses Fenômenos) e modelos semânticos da linguagem empregada por estes discentes. Desta forma, identificamos lacunas neste processo, já que uma série de conceitos de termodinâmica não tem sinal em LIBRAS, e com isso há a necessidade de uma ampla explicação para que o aluno compreenda o que é ensinado.
No quadro 1  apresentamos duas declarações dos discentes em relação às questões  1 e 2 a partir da mediação dos interpretes:
Quadro 1: Respostas dos alunos A e B


Aluno

Resposta questão 1

Resposta questão 2

A

O calor sol suando andando

Se doente termômetro se febre mostra temperatura calor

B

O calor do sol ficar suando pelo rosto

A temperatura mostra o número quando de grau e calor

Verificamos que os alunos relacionaram as idéias de calor e temperatura com algum exemplo de suas vivências cotidianas. Notamos ainda que a falta de sinais para os termos científicos, dificultam o intérprete na tradução, e com isso a compreensão do conteúdo fica debilitada. Portanto, a busca de possibilidades comunicativas sobre os conceitos de calor e temperatura com discentes deficientes auditivos, confirma a importância de pesquisas, que contribuam para o estabelecimento de um processo comunicativo, sem o qual o ensino de Física não ocorre de forma efetiva e significativa. Como agravante, temos o fato de que as aulas de Física são poucas (duas aulas semanais). Isto reflete no processo de ensino dos discentes surdos, que necessitam de mais atenção e explicações individualizadas. Outro fator negativo é a quantidade excessiva de alunos por classe no estado de São Paulo (em torno de quarenta discentes).
Conclusões
Com base na análise das entrevistas e das observações da aula, envolvendo o ensino de Termologia, mediada por intérprete de LIBRAS para alunos com deficiência auditiva, concluímos, ainda de forma parcial, que a falta de sinais para termos científicos, poucas aulas de físicas  bem como o excesso de alunos na sala de aula é uma agravante para o aprendizado do aluno deficiente auditivo. A falta de sinal exige do interprete uma explicação mais ampla, o que leva mais tempo e como isso o aluno perde alguns conteúdos e para agravar isso temos poucas aulas de físicas. Intimamente relacionada a isso podemos verificar o excesso de alunos e poucas aulas, na medida em que, os deficientes auditivos necessitam de mais atenção e com as dificuldades acima citado, este tem um aprendizado mais debilitado;
No entanto, existe a necessidade de constante apoio e comprometimento de professores e intérpretes para que a compreensão dos significados Físicos por parte do aluno surdo evolua.  Parece haver a necessidade de o docente de física se apropriar da LIBRAS para que este processo intermediário sofra menos influência do intérprete. Por outro lado, o trabalho desse profissional não deve ser desprezado, pois, o processo de comunicação entre discente com deficiência auditiva e seus colegas ouvintes e docente não se encerra na veiculação de significados físicos. Assim, esse profissional poderia atuar no sentido do apoio e complemento das ações direcionadas pelo docente de física.
Referências bibliográficas
BARBOSA LIMA, M.C., SANTANA, A. O mundo do silêncio: A percepção do espaço em alunos surdos e ouvintes. In: Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, IX, Jaboticatubas, 2004. Anais - CD-ROM, Jaboticatubas, SBF, 2004. 
BOGDAN, R; BIKLEN, S. K. Investigação em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto: Porto Ed. 336p., 1994.
BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de Dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de Abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de Dezembro de 2000. Diário Oficial da União, Brasília, DF, n. 246, 23 Dez. 2005. Seção 1, p.28
SÃO PAULO. LEI COMPLEMENTAR Nº 1.038, DE 06 DE MARÇO DE 2008. Cria a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, e dá providências correlatas. Publicada na Assessoria Técnico-Legislativa, março de 2008.
SILVA, A., PIRES, A.J.S. Introdução à acústica. Deficientes Auditivos, uma situação que se pode propagar até o futuro. In: Simpósio Nacional de Ensino de Física, XV, Curitiba, 2003. Anais - CD-ROM, Curitiba, SBF, 2003.

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