Faculdade de Ciências
Faculdade de Ciências

   
 
ENCINE - Ensino de Ciências e Inclusão Escolar
Artigos e Publicações - 2011
 

Versão para impressão

Voltar a página de Artigos e Publicações

ENSINO/APRENDIZAGEM DE FÍSICA: QUESTÃO APENAS DE INCLUSÃO DE ALUNOS COM NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS?
SENSORIAL DIVERSITY IN THE TEACHING-LEARNING OF PHYSICS: ONLY A MATTER OF INCLUDING PUPILS WITH SPECIALEDUCATIONAL NEEDS?
Eder Pires de Camargo
Departamento de Física e Química, Faculdade de Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”, Campus de Ilha Solteira –SP - e Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência (Área de concentração: Ensino de Ciências), Faculdade de Ciências,  Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” Campus de Bauru – SP. E-mail: camargoep@dfq.feis.unesp.br
Publicado nas atas do XIII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física (XIII EPEF):  Integração da Física na América Latina. Foz do Iguaçu, Paraná   - Pr. Data: de 05/06/2011 a 10/06/2011
http://sbfisica.org.br/~fisica2011/

Introdução
A diversidade, parte integral da ontologia humana, tem por referencial central a multiplicidade e convivência de elementos distintos. Ligada às ideias de pluralidade e heterogeneidade, exibe relações com a comunhão de contrários (não necessariamente entendidos como opostos) e na inter-relação de diferenças (MITTLER, 2003). Não por acaso, as ideias de inclusão social (que engloba a de inclusão escolar) são centralizadas no referencial em questão.
Não enfatizarei aqui de forma direta a inclusão escolar de alunos com necessidades educacionais especiais. Minha ênfase residirá em algo que constatei nas investigações que realizei com alunos deficientes visuais em aulas de física, ou seja, a ideia de diversidade sensorial (CAMARGO, 2011).  Tal ideia, portanto, surge do entendimento de que a física caracteriza-se pela diversidade no que tange aos processos de percepção empírica de fenômenos e representações mentais (em relação aos processos de interpretação e aprendizagem) desses fenômenos (imagens mentais visuais, auditivas, táteis etc. - (GRECA, 2005).
A partir do exposto, volto-me a uma questão primária referente à compreensão do que é ensinar e aprender física. Sem a ambição de apresentar resposta definitiva, única ou inovadora, afirmo que o ensino está intimamente ligado à produção de contextos comunicativos centrados em processos discursivos argumentativos, e a aprendizagem, numa interpretação, reorganização e representação subjetiva dos significados físicos captados. Surgem, portanto, duas questões centrais a serem discutidas: Não estaria o processo de ensino de física ligado de forma inseparável da diversidade sensorial que caracteriza a veiculação dos significados desse campo conceitual? Não estaria a aprendizagem de conceitos físicos atrelada a processos de construção de representações mentais caracterizadas pela diversidade sensorial, ou seja, a construção de imagens mentais visuais, auditivas, táteis etc (GRECA, op. cit.).  
Visando refletir acerca das questões indicadas, apresentarei três categorias que objetivam compreender a relação entre significado físico e diversidade sensorial. Essas categorias fazem parte de uma mais ampla, denominada “estrutura semântico-sensorial da linguagem” (CAMARGO, op. cit.).  A título de exemplo, aplicarei tais categorias para a compreensão de três conceitos físicos, a saber: campo (elétrico, magnético e gravitacional), calor e natureza dual da luz.
As categorias: estrutura semântico-sensorial
Antes das categorias, é preciso destacar um axioma atribuído aos significados conceituais. Todo conceito, em relação aos parâmetros sensorial, social ou abstrato, pode possuir múltiplos significados. Tomemos como exemplo a cor branca. Do ponto de vista social, essa cor possui significado relacionado à paz.  Esse significado não depende de representações mentais sensoriais para seu entendimento. Esse significado pode também ser entendido em função de uma representação mental visual, ou seja, relacionar a palavra “branca” a uma representação mental visual de branco (como pensar numa camisa branca). Do ponto de vista da óptica, o branco pode ser entendido como a sobreposição das múltiplas cores que compõem o espectro visível da luz. Esse entendimento não depende necessariamente de representações mentais sensoriais de natureza exclusiva.
A Estrutura semântico-sensorial refere-se aos efeitos produzidos pelas percepções sensoriais no significado de conceitos físicos. Esses efeitos são entendidos por meio de três referenciais associativos entre significado e percepção sensorial, a indissociabilidade, a vinculação e a não relacionabilidade.     
1)  Significados indissociáveis são aqueles cujas representações externa e mental são dependentes de determinado referencial sensorial. Esses significados nunca poderão ser veiculados e representados internamente por meio de parâmetros sensoriais distintos dos que os constituem. 
2) Significados vinculados são aqueles cujas representações externa e mental não são  exclusivamente dependentes do referencial sensorial utilizado para seu registro e veiculação. Sempre poderão ser representados externa e internamente por meio de parâmetros sensoriais distintos do inicial.
3) Significados sem relação sensorial não possuem vínculo ou associação com qualquer referencial sensorial.  Tratam-se de significados de conceitos abstratos referentes a  construtos hipotéticos   elaborados para a explicação e o entendimento de fenômenos, efeitos, propriedades etc.
Interpretando alguns conceitos físicos a partir das categorias descritas. 
Significado do conceito de campo: a ideia de campo está diretamente relacionada ao significado “sem relação sensorial”. Isto quer dizer que não é possível observar campos elétrico, magnético ou gravitacional.  A ideia de campo atua como um construto hipotético para explicar interações à   distância. Qualquer tentativa de representá-lo em forma perceptual sempre será incompleta e conduzirá o discente a  entendimentos equivocados.
Significados do conceito de calor: calor é energia em trânsito entre sistemas de diferentes temperaturas. Aqui surge um primeiro significado do conceito de calor, o de energia que por sua vez é algo abstrato, de significado sem relação sensorial. Por outro lado, a transferência de energia entre sistemas de diferentes temperaturas, ou seja, o calor, pode se dar por meio de três processos, condução, convecção e radiação. Tais processos podem ser representados por meio de modelos empiricamente observáveis e por isso possuem significados vinculados, por exemplo, às representações visual ou tátil (colisão entre moléculas dos sistemas, características geométricas de onda eletromagnética etc.). Existe, entretanto, um significado relacionado à percepção do calor, como a percepção da radiação solar ou de um metal à temperatura elevada. Esse significado é indissociável de representação tátil.
Significados do conceito de luz: o principal modelo de explicação da natureza da luz fundamenta-se na dualidade onda partícula, isto é, em determinados experimentos a luz se comporta como uma onda eletromagnética e em outros como partícula (fóton). O significado desses modelos pode ser vinculado às representações visual ou tátil, pois é possível observar e representar internamente tais objetos (partícula e onda) em função dos referenciais mencionados. Não estou afirmando que é possível a observação direta de onda eletromagnética e de fóton. O que se pode observar são modelos analógicos para a natureza da luz. Por outro lado, a luz contem significado indissociável de representação visual Que está diretamente relacionado à ideia de visão, às características visuais das cores, de transparência, opacidade, translucidez etc.
Considerações finais
Busquei brevemente abordar o fato de que a física contem conceitos caracterisados pela diversidade sensorial. Nesse sentido, pensar no processo ensino/aprendizagem de física com fundamentação em múltiplas percepções não é condição apenas para incluir alunos com necessidades educacionais especiais, mas é estrutura básica à aprendizagem de todos os discentes.
Surge uma alternativa necessária, ou seja, a de se pensar numa didática multissensorial para o ensino de física. Como destaca Soler (1999), a didática multissensorial consiste em dar a oportunidade ao aluno de conhecer o fenômeno (ou representações do fenômeno) por diversos sensores. Para isso pode-se elaborar experimentos multissensoriais onde o aluno possa tocar, ouvir, cheirar, sentir o gosto, ver, ampliando assim as chances de ter um aprendizado significativo. Segundo o mesmo autor, os sensores de visão, audição, paladar e olfato exercem funções de síntese e o sentido do tato exerce função de análise. Isso não significa que os sentidos sintéticos não possam exercer função analítica e que o sentido analítico não exerça função sintética. Essa tipologia é apenas prioritária e não exclusiva. Para que haja um aprendizado significativo, o aluno deve combinar processos de síntese e análise (SOLER, op. cit.). A física, como campo conceitual de conhecimento caracterizado pela diversidade sensorial, proporciona toda condição para a realização dos processos mencionados.
Referências bibliográficas
CAMARGO, E.P. Ensino de óptica para alunos cegos: possibilidades. 1. ed. Curitiba:  CRV, 2011.   

GRECA, I.M. REPRESENTACIONES MENTALES. In: MOREIRA, M.A. (org). Representações mentais, modelos mentais e representações sociais: Textos de apoio para pesquisadores em educação em ciências. 1° ed. Porto Alegre: UFRGS, 2005.   

MITTLER, P. Educação inclusiva: contextos sociais.    São Paulo: ARTMED, 2003
SOLER, M.A. Didáctica multisensorial de las ciencias, Barcelona: Ediciones Paidós Ibérica, S.A, 1999.

 

   Início da Página

Voltar a página de Artigos e Publicações