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ENCINE - Ensino de Ciências e Inclusão Escolar
Artigos e Publicações - 2011
 

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DIFICULDADES RELATADAS POR PROFESSORES NO PROCESSO DE INCLUSÃO DE ALUNOS COM DEFICIÊNCIA AUDITIVA

Thiago José Batista de Almeida1
 Eder Pires de Camargo2
 Denise Fernandes de Mello3
1Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência, Faculdade de Ciências, UNESP (Bauru – SP)
2Departamento de Física e Química, Faculdade de Engenharia, UNESP (Ilha Solteira –SP)
3Departamento de Física, Faculdade de Ciências, UNESP (Bauru – SP)
Publicado nas atas do III CONGRESSO BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO  (III CBE).
4 a 7 de Julho de 2011
UNESP – Bauru

Resumo
Neste trabalho buscamos retratar a visão de professores do Ensino Fundamental sobre quais são as principais dificuldades que estes profissionais tem na inclusão de alunos com deficiência auditiva em sala de aula. O levantamento foi realizado através da utilização de um questionário que elaboramos, buscando obter informações sobre formação dos professores, contacto com alunos com diferentes deficiências, utilização ou não ferramentas que auxiliem o processo de inclusão e contribuam para o processo de ensino-aprendizagem como um todo deste público. Os professores de uma escola de Ensino Fundamental foram convidados a responder os questionários. A participação foi voluntária e não houve identificação dos participantes. Este levantamento tem como objetivo contribuir com o projeto de pesquisa referente ao Mestrado de um dos autores deste trabalho, no tema: Ensino de Termologia para Deficientes auditivos, visando identificar como tem se dado o processo de inclusão.
Palavras Chave: Professores, Alunos Deficientes auditivos, Inclusão.

Email: thigrafico@hotmail.com

Introdução
As políticas educacionais estão cada vez mais preocupadas em promover a inclusão escolar de alunos com deficiência auditiva (BRASIL, 2005). No entanto, devemos observar como está sendo realizado este processo e também se professores e funcionários das escolas estão preparados para essa nova realidade.  A partir disso, torna-se fundamental observarmos políticas nacionais e ações práticas interessadas em capacitar profissionais para atender esses alunos. 
No estado de São Paulo, em relação à deficiência auditiva, percebe-se o interesse governamental de que nas salas de aula haja a presença de um intérprete de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais).  Este tema é abordado nesse trabalho através de uma discussão acerca do processo de comunicação entre discente com deficiência auditiva e docentes, mediado ou não pelo intérprete de LIBRAS, e se tal processo é eficiente para a aprendizagem de  alunos com a deficiência mencionada.
Investigações acerca da inclusão de alunos com deficiências em aulas de ciências foram realizadas no Brasil na última década. Pesquisas neste tema ainda são incipientes, mas alguns trabalhos apresentados em eventos científicos como EPEF e SNEF tem abordado questões relacionadas ao ensino de ciências para alunos surdos (SILVA, PIRES, 2003; BARBOSA-LIMA, SANTANA, 2004). Apresentamos tais referenciais teóricos, pois, este trabalho representa o início de uma investigação de mestrado que objetiva compreender as efetivas funções do intérprete de LIBRAS em aulas de física que tem a presença de alunos surdos. Portanto, os resultados aqui apresentados servirão de subsídios para o delineamento posterior de pesquisa junto à docentes que lecionam na realidade educacional abordada.
Dessa forma, propomos, em linhas gerais, discutir quais as principais dificuldades dos professores no ensino de alunos que tem deficiência auditiva. A escolha desse tema deve-se ao fato de haver dificuldades de comunicação entre os professores e os alunos deficientes auditivos, o que faz com que possamos avaliar qual seria uma alternativa para essa comunicação ser eficiente.

Objetivo
O Objetivo deste trabalho foi analisar quais as principais dificuldades apontadas por professores do Ensino Fundamental em relação ao processo-ensino aprendizagem na inclusão de alunos com deficiências auditivas.

Metodologia
O trabalho é de cunho qualitativo (BOGDAN, BIKLEN, 1994). O instrumento de coleta de dados utilizado foi a realização de entrevista semi estruturada com seis docentes, que continha 11 questões abordando formação dos professores, experiências e opiniões dos mesmos a respeito da inclusão de alunos com diferentes tipos de deficiências, com ênfase no deficiente auditivo, com objetivo de obter indícios sobre as principais dificuldades encontradas no processo de ensino-aprendizagem.

Tabela 1:  Dados sobre Formação, tempo de atuação no magistério e Ano do Ensino Fundamental atual em que leciona.


Professor(a)

Formação

Tempo de Atuação

Série/Ano Atual

1

Pedagogia/Pós em Educação Especial

5 anos

5º Ano

2

Pedagogia

 

5º ano

3

Pedagogia/Pós Psicopedagogia.

3 anos

1º ao 5º Ano

4

Pedagogia/Pós em Educação Especial

7anos

2º ano

5

Pedagogia

19 anos

2º Ano

6

Pedagogia/Pós Psicopedagogia

8 anos

1º Ano

 

Tabela 2: Dados sobre os tipos de deficiência com as quais o professor já se deparou em sala de aula


Professor(a)

Deficiente Físico

Deficiente Intelectual

Deficiente Visual

Deficiente Auditivo

Total de alunos que já trabalhou durante o tempo que leciona

1

2

6

 

2

10

2

 

3

 

1

4

3

1

7

 

 

8

4

 

7

 

 

7

5

 

19

19

1

39

6

1

4

 

 

5


Tabela 3:  Dificuldades de Professores com Alunos Deficientes Auditivos
 na Sala de Aula


Professor(a)

Dificuldade

1

Em relação a melhor maneira de comunicação

2

Intermediar a interação do aluno com os demais/baixo auto-estima do aluno/adaptação de conteúdos

3

Ainda não trabalhou com Deficiente Auditivo

4

Comunicação em Libras

5

Barulho das Crianças

6

Ainda não trabalhou com Deficiente Auditivo

 

Discussões
Foram entrevistados seis professores, todos com formação em pedagogia, dos quais 2 tinham cursado pós-graduação na área de educação especial e 2 pós-graduação em psicopedagogia. As pós graduações destes professores foram na modalidade latus sensu.Todos os professores entrevistados lecionam para turmas do 1 ao 5º ano  do ensino fundamental conforme dados apresentados na Tabela 1. Analisando os dados da Tabela 2, verificamos que todos  os seis professores já tiveram contato com alunos com algum tipo de deficiência. Em relação ao deficiente auditivo temos três professores.
A partir deste levantamento as dificuldades apresentadas pelos professores em relação ao aluno com deficiência auditiva envolvem a questão da comunicação, a qual se faz mediante a linguagem de Libras. Isto é verificado, pois a maior parte dos professores não tem formação em Libras, o que dificulta tal comunicação. Podemos também verificar através das entrevistas que estes alunos apresentam em geral uma baixo auto-estima, o que provoca o seu isolamento em relação aos demais alunos. Além disso, a falta de comunicação dos alunos deficientes auditivos com os demais dificulta sua interação social na sala de aula. Portanto com essas asserções acima, o aprendizado de tal aluno fica muito debilitado pela falta de uma comunicação mais eficiente.
Na opinião dos professores para ocorrer uma melhor aprendizagem, se faz necessário  ensinar libras tanto para professores como funcionários de apoio, a fim de que a comunicação entre alunos com deficiência auditiva seja mais efetiva. Além disso, a utilização de novas tecnologias que facilitem a comunicação seria importante para as aulas com tais alunos. Neste quesito os professores somente falaram destas tecnologias, no entanto, não explicitaram quais seriam as tecnologias adequadas. E um fator importante que não podemos esquecer de mencionar seria a presença de especialistas como fonoaudiólogos, psicólogos trabalhando em conjunto com os professores.
Percebemos que a formação desses professores é importante para o aprendizado de alunos com deficiências. Por isso com conteúdos aprendidos em relação em como lidar e como ensinar alunos com deficiência o aprendizado dos alunos será mais eficiente na pós-graduação poderá trazer mais eficiente.
O levantamento apresentado mostra indícios de que a formação inicial de professores  talvez precise ser revista, a fim de que sejam mais amplos os conteúdos trabalhados sobre deficiências com o objetivo de ter um profissional mais qualificado para o atendimento de alunos deficientes.  Em relação à presença de intérprete de libras na sala de aula, percebemos que os professores acreditam ser de muita importância para que a comunicação entre professor/aluno com deficiência auditiva ocorra. Assim, a presença desse intérprete seria importante para que as dúvidas, opiniões e também a comunicação entre alunos deficientes auditivos e alunos ouvintes tornem-se efetivas, contribuindo para uma inclusão mais efetiva.
Observamos ainda que há a necessidade de rever a forma como o processo de inclusão vem sendo realizado, isto porque muitos dos professores e funcionários não estão capacitados em atender os diferentes tipos de deficiências.  Isto implica dizer que a inclusão deve ocorrer com a adequação das escolas para atender as necessidades que cada tipo de deficiência exige, fato indicativo de que há um longo caminho a ser percorrido.

Considerações Finais
Com base na análise dos dados obtidos com as entrevistas, concluímos, ainda de forma parcial,  que as dificuldades apresentadas estão relacionadas a falta de preparo  do professor em lidar com os diferentes tipos de deficiências. Uma justificativa para essa conclusão está relacionada ao fato de que em sua graduação não houve o estudo de conteúdos suficientes sobre as temáticas da inclusão e das necessidades educacionais.  Nos casos em que ocorreram tais enfoques teóricos, os mesmos não estavam diretamente relacionados com o modo prático de como agir com alunos com deficiência. Acreditamos que a formação deve ser ampla e atingir de forma teórica-prática os diferentes tipos de deficiências.
A partir disso, para o caso do aluno surdo, a presença do intérprete de LIBRAS é uma alternativa essencial para o processo de ensino. A presença desse profissional possibilitará com que a comunicação ocorra fazendo com que se desenvolva mais adequadamente o aprendizado do discente com deficiência auditiva. Entretanto, o trabalho do intérprete não pode ser encarado como panacéia,  visto que sua formação não abrange o entendimento de significados específicos de conteúdos escolares como é o caso dos significados físicos. Estudar como o intérprete de LIBRAS compreende e comunica tais significados aos alunos com deficiência auditiva pode trazer indicativos para a superação de novos problemas educacionais oriundos da comunicação entre intérprete e discente com a deficiência mencionada.
Portanto é complexo o problema, tendo em vista que há diferentes graus de surdez e a necessidade de suporte de outros profissionais especializados como já citado.

Referências bibliográficas
BARBOSA LIMA, M.C., SANTANA, A. O mundo do silêncio: A percepção do espaço em alunos surdos e ouvintes. In: Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, IX, Jabuticatubas, 2004. Anais - CD-ROM, Jaboticatubas, SBF, 2004. 
BOGDAN, R; BIKLEN, S. K. Investigação em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto: Porto Ed. 336p., 1994.
BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de Dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de Abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de Dezembro de 2000. Diário Oficial da União, Brasília, DF, n. 246, 23 Dez. 2005. Seção 1, p.28

SILVA, A., PIRES, A.J.S. Introdução à acústica. Deficientes Auditivos, uma situação que se pode propagar até o futuro. In: Simpósio Nacional de Ensino de Física, XV, Curitiba, 2003. Anais - CD-ROM, Curitiba, SBF, 2003.

 

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